Somos seres insatisfeitos. Estamos sempre na busca, na conquista. Queremos mais e mais pela ganância, geradora de ansiedade e angústia. Não aceitamos a impermanência da vida e isto gera insatisfação contínua. Queremos que tudo siga a nossa vontade. Queremos controlar tudo e esta forma inábil de nos relacionarmos com os eventos da vida é geradora de muito sofrimento.
Agarramo-nos às expectativas que estão fora do nosso controle e não sabemos mudar nossas perspectivas ou abrir mão delas quando a realidade se manifesta, alheia às nossas preferências e escolhas.
A insatisfação é gerada pelo processo de apego e resistência às mudanças da vida. Somos estimulados pelo meio, frequentemente,  a nunca alcançarmos a satisfação. Há sempre um estímulo que chega, que aguça a nossa “fome” de algo novo, diferente, mesmo quando de fato não necessitamos daquilo. Somos treinados, desde muito cedo, a nos engajarmos em competições para sermos sempre os melhores, comparando-nos com tudo e com todos. O “suficientemente bom” mantém-se distante de nossos olhares e ficamos reféns do “olhar do outro”, insatisfeitos conosco mesmos e infelizes, permitindo, assim, que os outros nos definam.
Nos acostumamos a sermos bonzinhos com o meio para sermos amados e queridos, pois nossa insegurança e nossa ânsia por nós mesmos não nos permite avançar em aceitação e naquele processo de “eu me amo”, estou satisfeito comigo mesmo e me realizo com minhas afirmações.
A insatisfatoriedade está presente na forma como nos percebemos no universo de possibilidades. Não se trata de nos acomodarmos e estagnarmos em nossos processos pela satisfatoriedade, muito pelo contrário, nós aceitamos “o que é”, o que temos para o momento e nos inclinamos para avançarmos em nossos processos evolutivos. Partimos sempre da aceitação, da acolhida do ponto de onde nos encontramos para trabalharmos com as possibilidades reais de mudança. Nada punitivo ou comparativo, mas real, expressado pela tomada de consciência, pelo “saber quem somos”, o que temos, do que precisamos a cada momento.
A prática meditativa vai nos convidando ao desapego, ao soltarmos as nossas expectativas, a aceitar o momento presente como único e expressando a nossa momentânea condição de vida. Talvez possamos deixar fluir a nossa existência de uma forma mais solta, mais relaxada, mais calma e tranquila, fora da ansiedade da constante busca, da constante espera para que algo novo venha, aconteça, se materialize.
Aos poucos, vamos desenvolvendo a generosidade e a compaixão para conosco mesmos, quando vamos aprendendo com a impermanência da vida, que não precisamos de fato de tudo o que desejamos, muitas vezes, talvez sendo apenas criação mental de nossas insatisfações manifestadas.
Aos poucos, vamos acordando o nosso ser para o que realmente importa na nossa experiência, satisfeitos com o que já alcançamos ou atingimos neste desenvolvimento do nosso ser. Vamos valorizando as singelas experiências agradáveis e vamos acolhendo as desagradáveis com o coração aberto para o “que quer que venha”, para o novo. Vamos fazendo as pazes com o que já somos, já temos, tomando consciência do nosso auto amor genuíno, alimentando-nos incessantemente, deixando-nos plenamente satisfeitos conosco mesmos por esta via.

Felizes.
Pratiquemos.

Por Neiva Fernandes